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março 18, 2011

"Prestenção, minha gente"


Na fila que me parecia quase um século, minha atenção foi subitamente arrebatada por aquela figura entrando pela porta estreita da única casa lotérica da praia.

A prata dos cabelos presos num coque à moda antiga, o indefectível casaquinho usado por todas as avós do mundo, o par de óculos colado à ponta de seu nariz como parte de seu corpo... Nada, nada mesmo combinava com seus olhos. De um azul raro e imenso, quase celeste, era como um convite irrecusável à eternidade, tão jovens aparentava.

Com uma bengala que se não era de prata pura, parecia, ela deu alguns passos, meio trôpega e postou-se na fila do caixa onde havia um cartaz bastante visível e claro que dizia: “Idosos, deficientes e pessoas com crianças de colo”. Leu-o, como fazia todos os meses em que ali vinha receber a pensão de seu coronel, um amor que nem a morte separou. Mal tirou os olhos do cartaz, virou-se e deu de cara com uma moça com uma criança no colo.

Alta, de longos e bem tratados cabelos loiros, corpo bem feito à mostra num vestido curtíssimo, bem próprio para praia, a moça certamente estaria habituada a chamar atenção por onde passasse. Mas ela nunca imaginou que naquele dia, as atenções seriam redobradas. E ainda por um mal feito.
A senhorinha passou a olhar a moça acintosamente, de cima a baixo, como se varresse com o olhar algo desagradável. De repente, ela cruzou os braços à frente do peito como que para tomar coragem, levantou a cabeça para alcançar o olhar dela, tão falsamente distraído e disse:

– Ôôôô... mocinha! Acho que você cometeu um engano. O atendimento diferenciado inclui ‘pessoas com criança DE colo’ e não ‘pessoas com crianças NO colo”. – explicou, enfatizando o ‘no’.

Para nós, a população lotérica, que já tínhamos lido todos os cartazes da saleta e conversado com todos os conhecidos, aquilo naturalmente, foi um prato cheio para aliviar o tédio.

Não era implicância de gente velha, não. A criança era um baita de um guri, um galalau, passava de três anos e fazia força o tempo todo para livrar-se daquele colo inexplicável.
A moça até que tentou por alguns minutos ignorar o comentário, mas a senhora estava determinada a fazer justiça naquele momento:

– E então? – disse, espalmando as duas mãos e erguendo o queixo num gesto de evidente cobrança de atitude.
Não tendo mais como se livrar da velhinha e dos olhares cúmplices que a cercavam por todos os lados, ela explicou:

– Eu sempre pego fila, mas hoje estou precisando...

– Pois muito bem, minha filha. Parabéns pela sua educação! – e voltou-se para o caixa que a sua vez já chegara.

Devia ter cerca de vinte pessoas irritadas pela espera no recinto, todas loucas por uma boa desculpa para desabafar. Todas mantiveram o olhar firme na moça sem educação. Eu, protegida atrás de uns óculos escuros enormes, assistia tudo, morta de vergonha por ela. Pensei no quanto é humilhante receber uma lição daquelas, já sendo adulta, em público, por gente desconhecida.

O mal-estar durou uns minutos. Logo, não resistindo mais a pressão invisível e muda do povo, a moça desistiu e saiu da sala, com aquela criança enorme ao lado e as contas por pagar.

Quanto à senhora boca-dura, ficou o exemplo de civilidade a todos nós, que preferimos fazer vista grossa para não nos incomodarmos com situações como aquela, num país onde todos fazem o que querem e ninguém reclama.

Tive vontade de por a senhorinha debaixo do braço e levá-la até Brasília para resolver a questão da mega usina de Belo Monte que ameaça destruir boa parte da Amazônia desafiando a legislação ambiental, pondo diretor de Ibama para correr e coisa e tal.

Mas poderíamos começar por aqui, no centro de São Francisco do Sul. Ah! Esta velhinha na Prefeitura... Aposto que impediria a Norsul de entrar na ilha para fazer os estragos que promete, a despeito dos pareceres contra de biólogos e a desaprovação pública da população.A senhorinha, ao terminar sua tarefa no caixa, caminhou até a porta, e, como se estivesse se esquecendo de algo, virou-se e disse, para quem quisesse ouvir:
– Preste atenção, minha gente. Não deixe que te façam de bobo.

Autor: Fernanda de Aquino
Fonte: Correio do Litoral.Com 

Sinta-se em casa e deixe seu comentário.

dezembro 14, 2009

Caminhando nas nuvens.


Pensando na aceleração em que vivemos no mês de Dezembro, estou postando vídeos, textos leves e bem humorados esse é um, que eu já havia publicado em fevereiro desse ano. Os comentários vieram juntos, logo quem já comentou, pode comentar novamente, quem sabe a "leitura" seja outra...

Na certa posso apostar que vocês nunca fizeram isto, ou se fizeram, não têm coragem de confessar! Mas que foi bom foi! Não foi?

Por outro lado, muitos devem estar dizendo agora que essa história de caminhar nas nuvens só serve para namorados apaixonados, ou aqueles que não conseguem mesmo por os pés na terra firme.
Mas eu posso garantir para vocês, que caminhar nas nuvens, viajar por entre elas, e nelas descortinar as mais incríveis imagens e sonhos, é algo sensacional. Isto pode acontecer na hora em que a gente resolver dar uma descansada de um passeio no parque, deitado de papo pro ar, sem nada a pensar. Mas infalivelmente vamos nos pegar olhando as nuvens, buscando formas diferentes ou nelas procurando reconhecer imagens de animais, barcos, peixes, carros, e até os longos cabelos de uma linda mulher. Por falar nas mulheres, elas são capazes das nuvens tirarem as paredes de sua casa, as flores de seu jardim e os lábios do homem amado.
Poxa! Quanto romantismo hein?
E então, já no por do sol destes dias de verão, resolvemos dar uma caminhada por entre as nuvens que há muito tempo tínhamos vontade de dar.

Há quanto tempo não se sentia mais essa sensação de liberdade! Deixando a imaginação nos levar soltos, nos sentimos tocando com força o espaço antes só do soprar do vento. Mais alguns passos, e lá estávamos nós, sentados à beira de uma nuvem, quais crianças deixando as pernas balancearem a margem de um regato.

Nada de nos sentirmos donos do mundo, da verdade, da tristeza e da alegria! Nada disso! Mas só donos desse momento em quase podemos acariciar a Lua, provocando ciúmes no Sol que já foi se recolher, e dar um peteleco em uma das pontas da Estrela D’Alva só para ouvir se o seu tinido é mesmo de puro cristal, como dizem os poetas.

E até já cantamos aqueles marchinhas carnavalescas de antigamente, o que lembramos é claro. Uma diz que a Estrela D’Alva, no céu desponta com suave esplendor... larari laralááá´... E depois aquela Lua bonita se você não fosse casada, faria uma escada prá ir no céu te beijar!

Êpaaa! Esta nuvem está se afastando demais de casa! Hora de pular prá outra, senão depois não conseguiremos voltar! Sabem como é, né? Oooooppp! Deu!

Não dizem que de músico, poeta e louco, todos nós temos um pouco? Pois é! Hoje foi nosso dia! E os seus como serão ? Coragem gente! Não dói nada! E como é bom! Como é!
E tudo isso é maravilhoso, mesmo que esse passeio seja feito simplesmente da moldura da sua janela.
Um abraço e até .....!

Texto: A.J.Maier
Imagem: silvia masc

Caminhando nas nuvens.


Pensando na aceleração em que vivemos no mês de Dezembro, estou postando vídeos, textos leves e bem humorados esse é um, que eu já havia publicado em fevereiro desse ano. Os comentários vieram juntos, logo quem já comentou, pode comentar novamente, quem sabe a "leitura" seja outra...

Na certa posso apostar que vocês nunca fizeram isto, ou se fizeram, não têm coragem de confessar! Mas que foi bom foi! Não foi?

Por outro lado, muitos devem estar dizendo agora que essa história de caminhar nas nuvens só serve para namorados apaixonados, ou aqueles que não conseguem mesmo por os pés na terra firme.
Mas eu posso garantir para vocês, que caminhar nas nuvens, viajar por entre elas, e nelas descortinar as mais incríveis imagens e sonhos, é algo sensacional. Isto pode acontecer na hora em que a gente resolver dar uma descansada de um passeio no parque, deitado de papo pro ar, sem nada a pensar. Mas infalivelmente vamos nos pegar olhando as nuvens, buscando formas diferentes ou nelas procurando reconhecer imagens de animais, barcos, peixes, carros, e até os longos cabelos de uma linda mulher. Por falar nas mulheres, elas são capazes das nuvens tirarem as paredes de sua casa, as flores de seu jardim e os lábios do homem amado.
Poxa! Quanto romantismo hein?
E então, já no por do sol destes dias de verão, resolvemos dar uma caminhada por entre as nuvens que há muito tempo tínhamos vontade de dar.

Há quanto tempo não se sentia mais essa sensação de liberdade! Deixando a imaginação nos levar soltos, nos sentimos tocando com força o espaço antes só do soprar do vento. Mais alguns passos, e lá estávamos nós, sentados à beira de uma nuvem, quais crianças deixando as pernas balancearem a margem de um regato.

Nada de nos sentirmos donos do mundo, da verdade, da tristeza e da alegria! Nada disso! Mas só donos desse momento em quase podemos acariciar a Lua, provocando ciúmes no Sol que já foi se recolher, e dar um peteleco em uma das pontas da Estrela D’Alva só para ouvir se o seu tinido é mesmo de puro cristal, como dizem os poetas.

E até já cantamos aqueles marchinhas carnavalescas de antigamente, o que lembramos é claro. Uma diz que a Estrela D’Alva, no céu desponta com suave esplendor... larari laralááá´... E depois aquela Lua bonita se você não fosse casada, faria uma escada prá ir no céu te beijar!

Êpaaa! Esta nuvem está se afastando demais de casa! Hora de pular prá outra, senão depois não conseguiremos voltar! Sabem como é, né? Oooooppp! Deu!

Não dizem que de músico, poeta e louco, todos nós temos um pouco? Pois é! Hoje foi nosso dia! E os seus como serão ? Coragem gente! Não dói nada! E como é bom! Como é!
E tudo isso é maravilhoso, mesmo que esse passeio seja feito simplesmente da moldura da sua janela.
Um abraço e até .....!

Texto: A.J.Maier
Imagem: silvia masc

junho 01, 2009

Cinquentona - ® Manoel Carlos




Minha amiga Sylvia fez 50 anos e deu uma linda festa para os amigos.
Brigadeiros, casadinhos, olhos-de-sogra, além de salgados e bebidas à vontade. E no centro da mesa, iluminado por cinqüenta velinhas, um colossal e saboroso bolo de aniversário. Ah, e também, claro, com direito a um coro de muitas vozes cantando "Parabéns pra Você".
- Que coragem - brincou o Zé Mário, nosso velho companheiro das noitadas de pôquer.
Sylvia rebateu em cima:

- Por quê? Acha que ainda escondo a minha idade? Já superei isso, meu caro.

- No seu caso não é esconder - continuou Zé Mário.

- Pra que declarar, se você aparenta menos?

- Mas é justamente por isso que sinto tanto prazer em revelar minha verdadeira idade. É para ver as pessoas admiradas. Meus 50 anos não são um peso, mas um prêmio, um troféu, uma tocha olímpica que carrego com orgulho pela vida afora. Que é que você pensa? Sou uma cinqüentona e ainda bato um bolão!

E, nesse clima de feliz comemoração, varamos a noite, o champanhe gelado, o vinho rubro. E não é preciso dizer que a aniversariante reinou o tempo todo, dançando sem parar, nocauteando homens até dez anos mais novos do que ela. Como o seu próprio marido, o terceiro, que no sábado próximo estará completando 41 anos.

Sei que nem todas as mulheres são Sylvia. E que, para ser como ela, é preciso muita vontade, algum sacrifício e uma boa dose de herança genética. Mas o mais necessário mesmo é a disposição para a felicidade e a certeza de que sempre, sempre estará em tempo de viver uma vida produtiva. De qualquer maneira, mesmo as que não são Sylvia se sentem hoje mais livres do que nunca desse estigma que por décadas marcou todas elas e produziu um repertório imenso de piadas infames e cruéis: diminuir a idade. Concluí que hoje em dia as mulheres de 50 não têm mais do que 30! Verdade. Muitas das minhas amigas já passaram dessa marca e nunca se sentiram tão bem.

Em 1980 escrevi alguns programas da série Malu Mulher para Regina Duarte. Num deles, Malu comemorava 33 anos. Dei a esse episódio o título Antes dos 40, depois dos 30, colocando esse período de dez anos como o mais positivo na vida de uma mulher. Seu tempo de felicidade. Bem, isso foi em 1980. Vinte e cinco anos atrás. Hoje eu não escreveria essa história. Hoje sei que uma mulher pode ser feliz para sempre, levantando-se a cada tombo. Em sua maioria, elas já não entram em crise por causa da idade. Claro que não querem envelhecer.

Ninguém quer. Mas esse não querer não está ligado apenas à aparência, mas à saúde, à boa disposição para enfrentar o dia e... - sem nenhuma dúvida - à certeza de que não existe idade que as impeçam de amar, ser amadas. E de ainda fazer bonito entre os lençóis de uma cama. Sylvia, por exemplo, tem tudo para botar um garotão com a língua de fora, sôfrego, cansado, pedindo um tempo.

Eu me lembro de uma vizinha, quando eu era criança, que, quando foi subitamente abandonada pelo marido, provocou em minha mãe esta frase: "Pobre Dolores! Sozinha aos 50 anos! O que vai ser dela agora?". A consternação da minha mãe traduzia o que se pensava de uma mulher que tivesse ultrapassado a marca dos 25, 30 anos no máximo. Uma velha. Não sei o que aconteceu com a pobre Dolores, mas acredito que tenha arrastado por toda a vida a amargura e a desesperança. Atualmente, uma separação aos 50 anos pode ser o começo de um novo tempo, muitas vezes melhor, mais feliz do que o anterior. Sem contar que, nos dias de hoje, um casamento que vai mal das pernas não dura até a mulher chegar aos 50. Acaba antes, já que elas não carregam uma vida infeliz por muito tempo.

Nas minhas novelas procuro retratar as mulheres maduras, essas que já passaram dos 40. São elas que têm as melhores histórias para contar, as confissões mais tocantes, as lembranças mais ternas, os episódios mais picantes. Que ainda sofrem e choram, sim, mas que não sofrem nem choram para sempre. E que, quando fazem 50 anos, dão festa, convidam os amigos, apagam as velinhas e fazem coro em causa própria, cantando o Parabéns pra Você!

Por isso digo e repito: bem-aventuradas as cinqüentonas! As que se renovam a cada dia, a cada instante, e que podem renascer incessante e indefinidamente, repetindo os versos de Cecília Meireles:

"Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira".

Imagem: Google

LONGEVIDADE

Cinquentona - ® Manoel Carlos




Minha amiga Sylvia fez 50 anos e deu uma linda festa para os amigos.
Brigadeiros, casadinhos, olhos-de-sogra, além de salgados e bebidas à vontade. E no centro da mesa, iluminado por cinqüenta velinhas, um colossal e saboroso bolo de aniversário. Ah, e também, claro, com direito a um coro de muitas vozes cantando "Parabéns pra Você".
- Que coragem - brincou o Zé Mário, nosso velho companheiro das noitadas de pôquer.
Sylvia rebateu em cima:

- Por quê? Acha que ainda escondo a minha idade? Já superei isso, meu caro.

- No seu caso não é esconder - continuou Zé Mário.

- Pra que declarar, se você aparenta menos?

- Mas é justamente por isso que sinto tanto prazer em revelar minha verdadeira idade. É para ver as pessoas admiradas. Meus 50 anos não são um peso, mas um prêmio, um troféu, uma tocha olímpica que carrego com orgulho pela vida afora. Que é que você pensa? Sou uma cinqüentona e ainda bato um bolão!

E, nesse clima de feliz comemoração, varamos a noite, o champanhe gelado, o vinho rubro. E não é preciso dizer que a aniversariante reinou o tempo todo, dançando sem parar, nocauteando homens até dez anos mais novos do que ela. Como o seu próprio marido, o terceiro, que no sábado próximo estará completando 41 anos.

Sei que nem todas as mulheres são Sylvia. E que, para ser como ela, é preciso muita vontade, algum sacrifício e uma boa dose de herança genética. Mas o mais necessário mesmo é a disposição para a felicidade e a certeza de que sempre, sempre estará em tempo de viver uma vida produtiva. De qualquer maneira, mesmo as que não são Sylvia se sentem hoje mais livres do que nunca desse estigma que por décadas marcou todas elas e produziu um repertório imenso de piadas infames e cruéis: diminuir a idade. Concluí que hoje em dia as mulheres de 50 não têm mais do que 30! Verdade. Muitas das minhas amigas já passaram dessa marca e nunca se sentiram tão bem.

Em 1980 escrevi alguns programas da série Malu Mulher para Regina Duarte. Num deles, Malu comemorava 33 anos. Dei a esse episódio o título Antes dos 40, depois dos 30, colocando esse período de dez anos como o mais positivo na vida de uma mulher. Seu tempo de felicidade. Bem, isso foi em 1980. Vinte e cinco anos atrás. Hoje eu não escreveria essa história. Hoje sei que uma mulher pode ser feliz para sempre, levantando-se a cada tombo. Em sua maioria, elas já não entram em crise por causa da idade. Claro que não querem envelhecer.

Ninguém quer. Mas esse não querer não está ligado apenas à aparência, mas à saúde, à boa disposição para enfrentar o dia e... - sem nenhuma dúvida - à certeza de que não existe idade que as impeçam de amar, ser amadas. E de ainda fazer bonito entre os lençóis de uma cama. Sylvia, por exemplo, tem tudo para botar um garotão com a língua de fora, sôfrego, cansado, pedindo um tempo.

Eu me lembro de uma vizinha, quando eu era criança, que, quando foi subitamente abandonada pelo marido, provocou em minha mãe esta frase: "Pobre Dolores! Sozinha aos 50 anos! O que vai ser dela agora?". A consternação da minha mãe traduzia o que se pensava de uma mulher que tivesse ultrapassado a marca dos 25, 30 anos no máximo. Uma velha. Não sei o que aconteceu com a pobre Dolores, mas acredito que tenha arrastado por toda a vida a amargura e a desesperança. Atualmente, uma separação aos 50 anos pode ser o começo de um novo tempo, muitas vezes melhor, mais feliz do que o anterior. Sem contar que, nos dias de hoje, um casamento que vai mal das pernas não dura até a mulher chegar aos 50. Acaba antes, já que elas não carregam uma vida infeliz por muito tempo.

Nas minhas novelas procuro retratar as mulheres maduras, essas que já passaram dos 40. São elas que têm as melhores histórias para contar, as confissões mais tocantes, as lembranças mais ternas, os episódios mais picantes. Que ainda sofrem e choram, sim, mas que não sofrem nem choram para sempre. E que, quando fazem 50 anos, dão festa, convidam os amigos, apagam as velinhas e fazem coro em causa própria, cantando o Parabéns pra Você!

Por isso digo e repito: bem-aventuradas as cinqüentonas! As que se renovam a cada dia, a cada instante, e que podem renascer incessante e indefinidamente, repetindo os versos de Cecília Meireles:

"Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira".

Imagem: Google

LONGEVIDADE

maio 08, 2009

DR

Rosa Pena

Querido filho Tavinho.

Hoje você completa trinta e um anos! Ula lá!
Lembrei de uma música.”Não confie em ninguém com mais de trinta”. Será que agora em nossa DR (discussão de relação) também vai pairar desconfiança? Que santa Menopausa não permita.

Deixei seus presentes e essa cartinha com todo o meu carinho.

Coloquei também algumas besteirinhas escondidas pelo seu quarto. Tente achá-las como fazia com os ovinhos da páscoa. Ah! Quanto aos seus presentes que estão no sofá, espero que goste deles, pois comprei da mesma forma com que você comprou os meus no dia das mães. Com todo afeto e como você bem disse:

A gente tem que dar algo que realmente combine com quem vai receber.

Espero que faça uma boa leitura do livro “Adolescentes rebeldes”, assim como estou fazendo do que ganhei de você: “Saúde na Terceira Idade".

Também tive o cuidado de comprar um pijama bem solto, para não apertar seus documentos, você sempre teve horror de fraldas apertadas. Ah! A cinta que me deu das lojas “
Marisa” ainda não usei, mas entendi a sua escolha recair no manequim 48. Mulheres de mais de cinqüenta, ainda que magras, sempre serão obesas... Né? Estou guardando para quando você for independente e quem sabe finalmente se casar com a Marilú. Rogo ao bom Deus que se casado você não se separe e volte para casa. Agora os casamentos não duram, pois todo mundo descobriu que é só voltar pra casa da mãe, sendo ela ou não Joana. Torço para que sua esposa sempre faça para você a sua vitamina de mamão, acerola, laranja, kiwi, colocando apenas açúcar mascavo. Por sinal a dita está pronta no liquidificador. Lembre-se, pelo menos uma vez na vida, de deixar o copo com um pouquinho de água no fundo, senão depois para lavar é uma merda.

Tive que sair para cortar os cabelos no salão Paraíso. Padeço lá na espera, mas toda mãe que se preza sempre padeceu! Fiquei anos sem poder freqüentar cabeleireiros para pagar uma psicóloga e criar você sem traumas. Acho que você não tem praticamente nenhum, exceto o de ver TV deitado no sofá da sala o dia todo. Será que sem querer passei pra você algum transtorno de divã?


Às vezes até me arrependo de não tê-lo colocado na escola de circo. Afinal acrobacia com bolas no sinal é um trabalho! Mas fazer o quê? Agora Inês, minha psicanalista, é morta e você formado em oceanografia pela Universidade da Cidade Virtual. Pena que se formou só para continuar a surfar. Nunca quis saber de peixes, exceto do Godofredo que vive no aquário, aliás, eu já dei comida pra ele, senão o bichinho morre. Mães! Mas as mães não devem interferir nas escolhas. Todo cuidado é pouco com o emocional de um filho.

Despeço-me com assobios de parabéns, parabéns, hoje é o seu dia, que dia mais feliz. É a música da Xuxa. E dessa “com quem será, com quem será, com quem será que o Tavinho vai casar”, recorda?

Beijos da mamãe

Cacilda.


P.S. Seus cachorros já levei para passear, senão eles cagavam na sala. Lembre-se de que hoje, quando for para a terapia, não deve e nem pode colocar culpas de maneira alguma em mim, mas sim em outra ancestral (de sua bisavó para trás), pois eu já culpei a minha mãe e ela a dela. Não sei o nome de sua tataravó, mas acredito que seja ela a responsável por você ser oceanógrafo desempregado, surfista aposentado e dependente de mim. Te amo!

Obs: Os personagens são imaginários

Obra completa de rosa pena.Clique em:

www.rosapena.com

DR

Rosa Pena

Querido filho Tavinho.

Hoje você completa trinta e um anos! Ula lá!
Lembrei de uma música.”Não confie em ninguém com mais de trinta”. Será que agora em nossa DR (discussão de relação) também vai pairar desconfiança? Que santa Menopausa não permita.

Deixei seus presentes e essa cartinha com todo o meu carinho.

Coloquei também algumas besteirinhas escondidas pelo seu quarto. Tente achá-las como fazia com os ovinhos da páscoa. Ah! Quanto aos seus presentes que estão no sofá, espero que goste deles, pois comprei da mesma forma com que você comprou os meus no dia das mães. Com todo afeto e como você bem disse:

A gente tem que dar algo que realmente combine com quem vai receber.

Espero que faça uma boa leitura do livro “Adolescentes rebeldes”, assim como estou fazendo do que ganhei de você: “Saúde na Terceira Idade".

Também tive o cuidado de comprar um pijama bem solto, para não apertar seus documentos, você sempre teve horror de fraldas apertadas. Ah! A cinta que me deu das lojas “
Marisa” ainda não usei, mas entendi a sua escolha recair no manequim 48. Mulheres de mais de cinqüenta, ainda que magras, sempre serão obesas... Né? Estou guardando para quando você for independente e quem sabe finalmente se casar com a Marilú. Rogo ao bom Deus que se casado você não se separe e volte para casa. Agora os casamentos não duram, pois todo mundo descobriu que é só voltar pra casa da mãe, sendo ela ou não Joana. Torço para que sua esposa sempre faça para você a sua vitamina de mamão, acerola, laranja, kiwi, colocando apenas açúcar mascavo. Por sinal a dita está pronta no liquidificador. Lembre-se, pelo menos uma vez na vida, de deixar o copo com um pouquinho de água no fundo, senão depois para lavar é uma merda.

Tive que sair para cortar os cabelos no salão Paraíso. Padeço lá na espera, mas toda mãe que se preza sempre padeceu! Fiquei anos sem poder freqüentar cabeleireiros para pagar uma psicóloga e criar você sem traumas. Acho que você não tem praticamente nenhum, exceto o de ver TV deitado no sofá da sala o dia todo. Será que sem querer passei pra você algum transtorno de divã?


Às vezes até me arrependo de não tê-lo colocado na escola de circo. Afinal acrobacia com bolas no sinal é um trabalho! Mas fazer o quê? Agora Inês, minha psicanalista, é morta e você formado em oceanografia pela Universidade da Cidade Virtual. Pena que se formou só para continuar a surfar. Nunca quis saber de peixes, exceto do Godofredo que vive no aquário, aliás, eu já dei comida pra ele, senão o bichinho morre. Mães! Mas as mães não devem interferir nas escolhas. Todo cuidado é pouco com o emocional de um filho.

Despeço-me com assobios de parabéns, parabéns, hoje é o seu dia, que dia mais feliz. É a música da Xuxa. E dessa “com quem será, com quem será, com quem será que o Tavinho vai casar”, recorda?

Beijos da mamãe

Cacilda.


P.S. Seus cachorros já levei para passear, senão eles cagavam na sala. Lembre-se de que hoje, quando for para a terapia, não deve e nem pode colocar culpas de maneira alguma em mim, mas sim em outra ancestral (de sua bisavó para trás), pois eu já culpei a minha mãe e ela a dela. Não sei o nome de sua tataravó, mas acredito que seja ela a responsável por você ser oceanógrafo desempregado, surfista aposentado e dependente de mim. Te amo!

Obs: Os personagens são imaginários

Obra completa de rosa pena.Clique em:

www.rosapena.com

março 07, 2009

O único defeito da mulher



Escolhi o texto do Sérgio, porque me encantou, farei uso dele, para prestar uma homenagem à todas as mulheres, amigas, leitoras e blogueiras. Aplausos para o autor, e para os homens que nos veem com essa visão.

beijão meninas.




"Se uma memória restou das festinhas e reuniões de familiares da minha infância, foi a divisão sexual entre os convivas: mulheres de um lado, homens do outro. Não sei se hoje isso ainda ocorre. Sou anti-social ao ponto de não freqüentar qualquer evento com mais de 4 pessoas, o que não me credencia a emitir juízo. Mas era assim que a coisa rolava naqueles tempos. Tive uma infância feliz: sempre fui considerado esquisito,
estranho e solitário, o que me permitia ficar quieto observando a paisagem.

Bom, rapidinho verifiquei que o apartheid sexual ia muito além das diferenças anatômicas. A fronteira era determinada pelos pontos de vista, atitude e prioridades. Explico: no "córner" masculino imperava o embate das comparações e disputas. "Meu carro é mais potente, minha TV é mais moderna, meu salário é maior, a vista do meu apartamento é melhor, meu time é mais forte, eu dou 3 por noite", e outras cascatas típicas da macheza latina. Já no "córner" oposto, respirava- se outro ar. As opiniões eram quase sempre ligadas ao sentir. Falava- se de sentimentos, frustrações e recalques com uma falta de cerimônia que me deliciava.

Os maridos preferiam classificar aquele ti-ti-ti como fofoca. Discordo.
Destas reminiscências infantis veio a minha total e irrestrita paixão pelas mulheres. Constatem, é fácil. Enquanto o homem vem ao mundo completamente cru, freqüentando e levando bomba no be-a-bá da vida, as mulheres já chegam na metade do segundo grau. Qualquer menina de 2 ou 3 anos já tem preocupações de ordem prática. Ela brinca de casinha e aprende a dar um pouco de ordem nas coisas. Ela pede uma bonequinha que chama de filha e da qual cuida, instintivamente, como qualquer mãe veterana.

Ela fala em namoro mesmo sem ter uma idéia muito clara do que vem a ser isso. Em outras palavras, ela já chega sabendo. E o que não sabe, intui. Já com os homens a historia é outra. Você já viu um menino dessa idade brincando de executivo? Já ouviu falar de algum moleque fingindo ir ao banco pagar as contas? Já presenciou um bando de meninos fingindo estar preocupados com a entrega da declaração do Imposto de Renda? Não, nunca viram e nem verão. Porque o homem nasce, vive e morre uma existência infanto juvenil. O que varia ao longo da vida é o preço dos brinquedos. Aí reside a maior diferença. O que para as meninas é treino para a vida, para os meninos é fantasia, e competição. Então a fuga os acompanha o resto da vida, e não percebem quanto tempo eles perdem com seus medos.

Falo sem o menor pudor. Sou assim, todo homem é assim. Em relação ao relacionamento homem/mulher, sempre me considerei um privilegiado.
Sempre consegui enxergar a beleza física feminina mesmo onde, segundo os critérios estéticos vigentes, ela inexistia. Porque toda mulher é linda. Se não no todo, pelo menos em algum detalhe. É só saber olhar.
Todas têm sua graça.

E embora contaminado pela irreversível herança genética que me faz idolatrar os ícones de cafajestismo, sempre me apaixonei perdidamente por todas as incautas que se aproximaram de mim.
Incautas não por serem ingênuas, mas por acreditarem.
Porque toda mulher acredita firmemente na possibilidade do homem ideal.E esse é o seu único defeito..."

Texto de Sérgio Gonçalves, redator da Loducca, publicado no jornal da agência.

O único defeito da mulher



Escolhi o texto do Sérgio, porque me encantou, farei uso dele, para prestar uma homenagem à todas as mulheres, amigas, leitoras e blogueiras. Aplausos para o autor, e para os homens que nos veem com essa visão.

beijão meninas.




"Se uma memória restou das festinhas e reuniões de familiares da minha infância, foi a divisão sexual entre os convivas: mulheres de um lado, homens do outro. Não sei se hoje isso ainda ocorre. Sou anti-social ao ponto de não freqüentar qualquer evento com mais de 4 pessoas, o que não me credencia a emitir juízo. Mas era assim que a coisa rolava naqueles tempos. Tive uma infância feliz: sempre fui considerado esquisito,
estranho e solitário, o que me permitia ficar quieto observando a paisagem.

Bom, rapidinho verifiquei que o apartheid sexual ia muito além das diferenças anatômicas. A fronteira era determinada pelos pontos de vista, atitude e prioridades. Explico: no "córner" masculino imperava o embate das comparações e disputas. "Meu carro é mais potente, minha TV é mais moderna, meu salário é maior, a vista do meu apartamento é melhor, meu time é mais forte, eu dou 3 por noite", e outras cascatas típicas da macheza latina. Já no "córner" oposto, respirava- se outro ar. As opiniões eram quase sempre ligadas ao sentir. Falava- se de sentimentos, frustrações e recalques com uma falta de cerimônia que me deliciava.

Os maridos preferiam classificar aquele ti-ti-ti como fofoca. Discordo.
Destas reminiscências infantis veio a minha total e irrestrita paixão pelas mulheres. Constatem, é fácil. Enquanto o homem vem ao mundo completamente cru, freqüentando e levando bomba no be-a-bá da vida, as mulheres já chegam na metade do segundo grau. Qualquer menina de 2 ou 3 anos já tem preocupações de ordem prática. Ela brinca de casinha e aprende a dar um pouco de ordem nas coisas. Ela pede uma bonequinha que chama de filha e da qual cuida, instintivamente, como qualquer mãe veterana.

Ela fala em namoro mesmo sem ter uma idéia muito clara do que vem a ser isso. Em outras palavras, ela já chega sabendo. E o que não sabe, intui. Já com os homens a historia é outra. Você já viu um menino dessa idade brincando de executivo? Já ouviu falar de algum moleque fingindo ir ao banco pagar as contas? Já presenciou um bando de meninos fingindo estar preocupados com a entrega da declaração do Imposto de Renda? Não, nunca viram e nem verão. Porque o homem nasce, vive e morre uma existência infanto juvenil. O que varia ao longo da vida é o preço dos brinquedos. Aí reside a maior diferença. O que para as meninas é treino para a vida, para os meninos é fantasia, e competição. Então a fuga os acompanha o resto da vida, e não percebem quanto tempo eles perdem com seus medos.

Falo sem o menor pudor. Sou assim, todo homem é assim. Em relação ao relacionamento homem/mulher, sempre me considerei um privilegiado.
Sempre consegui enxergar a beleza física feminina mesmo onde, segundo os critérios estéticos vigentes, ela inexistia. Porque toda mulher é linda. Se não no todo, pelo menos em algum detalhe. É só saber olhar.
Todas têm sua graça.

E embora contaminado pela irreversível herança genética que me faz idolatrar os ícones de cafajestismo, sempre me apaixonei perdidamente por todas as incautas que se aproximaram de mim.
Incautas não por serem ingênuas, mas por acreditarem.
Porque toda mulher acredita firmemente na possibilidade do homem ideal.E esse é o seu único defeito..."

Texto de Sérgio Gonçalves, redator da Loducca, publicado no jornal da agência.

janeiro 25, 2009

Quindins na portaria - Martha Medeiros




Estava lendo o novo livro do Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde, numa de suas prosas poéticas, ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio do Mario Quintana: ‘Para estar ao lado sem pesar com a presença’.
Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nesta frase porque o não pesar os outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade.
Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibilidade tem outro nome: frescura. Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário.
Ah, pesa.
Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas e na de meu próprio quarto, se sei que está ocupado.
Eu pergunto para minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone. Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas.
Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, o que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando.
Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito.
Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho.
Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja.
Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribuí-los sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Dizemos pelo computador coisas que face a face seriam mais trabalhosas.
Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo?
Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela. Quando mando flores, vou junto com o cartão.
Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto.
Sendo assim, bilhetes, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância: é só um outro tipo de abraço.

Quindins na portaria - Martha Medeiros




Estava lendo o novo livro do Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde, numa de suas prosas poéticas, ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio do Mario Quintana: ‘Para estar ao lado sem pesar com a presença’.
Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nesta frase porque o não pesar os outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade.
Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibilidade tem outro nome: frescura. Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário.
Ah, pesa.
Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas e na de meu próprio quarto, se sei que está ocupado.
Eu pergunto para minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone. Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas.
Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, o que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando.
Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito.
Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho.
Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja.
Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribuí-los sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Dizemos pelo computador coisas que face a face seriam mais trabalhosas.
Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo?
Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela. Quando mando flores, vou junto com o cartão.
Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto.
Sendo assim, bilhetes, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância: é só um outro tipo de abraço.

Quindins na portaria - Martha Medeiros




Estava lendo o novo livro do Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde, numa de suas prosas poéticas, ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio do Mario Quintana: ‘Para estar ao lado sem pesar com a presença’.
Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nesta frase porque o não pesar os outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade.
Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibilidade tem outro nome: frescura. Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário.
Ah, pesa.
Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas e na de meu próprio quarto, se sei que está ocupado.
Eu pergunto para minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone. Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas.
Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, o que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando.
Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito.
Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho.
Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja.
Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribuí-los sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Dizemos pelo computador coisas que face a face seriam mais trabalhosas.
Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo?
Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela. Quando mando flores, vou junto com o cartão.
Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto.
Sendo assim, bilhetes, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância: é só um outro tipo de abraço.

Quindins na portaria - Martha Medeiros




Estava lendo o novo livro do Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde, numa de suas prosas poéticas, ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio do Mario Quintana: ‘Para estar ao lado sem pesar com a presença’.
Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nesta frase porque o não pesar os outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade.
Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibilidade tem outro nome: frescura. Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário.
Ah, pesa.
Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas e na de meu próprio quarto, se sei que está ocupado.
Eu pergunto para minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone. Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas.
Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, o que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando.
Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito.
Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho.
Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja.
Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribuí-los sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Dizemos pelo computador coisas que face a face seriam mais trabalhosas.
Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo?
Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela. Quando mando flores, vou junto com o cartão.
Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto.
Sendo assim, bilhetes, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância: é só um outro tipo de abraço.

janeiro 13, 2009

Encontro com o passado - Elysio Lugarinho Netto


"E por falar em saudade, onde anda você... "
Ele atravessou a rua e a viu mais adiante. Mary. Loiríssima, linda, na calçada, junto ao meio-fio, parada. Os anos não mudaram o seu rosto.

- Não acredito! Foi cerimoniosa. Enrubesceu.
- Você por aqui?
- Moro nesta cidade. E você?
- Estou passando dias, aproveitando o frio.
- Sei... E o que tem feito?
- Ih... O meu marido chegou!
Ela entrou no automóvel. Com o olhar, ele acompanhou seu passado até dobrar à direita, no final da avenida. Resmungou:
- Maldito Porsche, acelera de 0 a 100 em 5 segundos.


Encontro com o passado - Elysio Lugarinho Netto


"E por falar em saudade, onde anda você... "
Ele atravessou a rua e a viu mais adiante. Mary. Loiríssima, linda, na calçada, junto ao meio-fio, parada. Os anos não mudaram o seu rosto.

- Não acredito! Foi cerimoniosa. Enrubesceu.
- Você por aqui?
- Moro nesta cidade. E você?
- Estou passando dias, aproveitando o frio.
- Sei... E o que tem feito?
- Ih... O meu marido chegou!
Ela entrou no automóvel. Com o olhar, ele acompanhou seu passado até dobrar à direita, no final da avenida. Resmungou:
- Maldito Porsche, acelera de 0 a 100 em 5 segundos.


Encontro com o passado - Elysio Lugarinho Netto


"E por falar em saudade, onde anda você... "
Ele atravessou a rua e a viu mais adiante. Mary. Loiríssima, linda, na calçada, junto ao meio-fio, parada. Os anos não mudaram o seu rosto.

- Não acredito! Foi cerimoniosa. Enrubesceu.
- Você por aqui?
- Moro nesta cidade. E você?
- Estou passando dias, aproveitando o frio.
- Sei... E o que tem feito?
- Ih... O meu marido chegou!
Ela entrou no automóvel. Com o olhar, ele acompanhou seu passado até dobrar à direita, no final da avenida. Resmungou:
- Maldito Porsche, acelera de 0 a 100 em 5 segundos.


Encontro com o passado - Elysio Lugarinho Netto


"E por falar em saudade, onde anda você... "
Ele atravessou a rua e a viu mais adiante. Mary. Loiríssima, linda, na calçada, junto ao meio-fio, parada. Os anos não mudaram o seu rosto.

- Não acredito! Foi cerimoniosa. Enrubesceu.
- Você por aqui?
- Moro nesta cidade. E você?
- Estou passando dias, aproveitando o frio.
- Sei... E o que tem feito?
- Ih... O meu marido chegou!
Ela entrou no automóvel. Com o olhar, ele acompanhou seu passado até dobrar à direita, no final da avenida. Resmungou:
- Maldito Porsche, acelera de 0 a 100 em 5 segundos.


janeiro 01, 2009

Despedida do TREMA - Colaboração Alexander Striemer


Como outros já fizeram, quero também me despedir do trema, cuja morte foi anunciada por decreto a partir de 1º de janeiro:

Não uma, mas cinqüenta e cinco vezes, quero me despedir desta acentuação antiqüíssima e usada com tanta freqüência. Fomos argüídos a respeito?
Claro que não! A ambigüidade que tínhamos para decidir se queríamos usar o trema ou não numa frase nos foi seqüestrada para sempre. Afinal, a ubiqüidade do trema nunca nos foi exigida.

Quem deve se beneficiar com esta tão inconseqüente medida? Creio que tão somente os alcagüetes, os delinqüentes e os sangüinários, justamente aqueles que não estão eqüidistantes, como nós, dos valores eqüiláteros da Sociedade.

Vocês já se argüiram sobre as conseqüências do fim do trema para os pingüins, os sagüis e os eqüestres? Estes perderão uma identidade conquistada desde a antigüidade.

E o que dizer do nosso herói Anhangüera, que vivia tranqüilo com o seu nome indígena? Com a liqüidação do trema, a pronúncia do seu nome não será mais exeqüível.
Os nossos papos de chopp nunca mais serão os mesmos, pois a tão freqüente lingüicinha acebolada vai desagüar num sangüíneo esquecimento.

O que vai acontecer com o grão de bico com gergelim, agora sem o liqüidificador para prepará-lo?
Ah, meu Deus! Tenha piedade de nós! Nunca mais poderemos escrever que "a última enxagüada é a que fica"!

Não sei se vou agüentar a perda da eloqüência, em termos de estilo literário, que o trema trazia à Última Flor do Lácio.
É preciso que averigüemos se haverá seqüelas futuras! E para onde vai a grandiloqüência dos lingüistas?
Haja ungüento para suportar tamanha dor!

O que podemos esperar em seqüência? Será que não se poderia esperar mais um qüinqüênio para que fossem melhor avaliados os líqüidos benefícios desta mudança?

Portanto, pela qüinqüagésima vez, a minha voz exangüe se une à dos bilíngües e trilíngües como eu, cuja consangüinidade lingüística e contigüidade sintática se revolta ante tamanha iniqüidade.

Pedir que nos apazigüemos, para mim é inexeqüível, pois falta-nos tranqüilidade diante de tamanha delinqüência gramatical.
Portanto é com dor no coração que lhe dou este meu adeus desmilingüido.

Adeus, meu trema querido! Mas pelo menos uma coisa me apazigüa, pois quando a saudade bater, sei que vou poder revê-lo quando estiver lendo alguma coisa em alemão.
Desconheço a autoria, mas a-d-o-r-e-i!

Despedida do TREMA - Colaboração Alexander Striemer


Como outros já fizeram, quero também me despedir do trema, cuja morte foi anunciada por decreto a partir de 1º de janeiro:

Não uma, mas cinqüenta e cinco vezes, quero me despedir desta acentuação antiqüíssima e usada com tanta freqüência. Fomos argüídos a respeito?
Claro que não! A ambigüidade que tínhamos para decidir se queríamos usar o trema ou não numa frase nos foi seqüestrada para sempre. Afinal, a ubiqüidade do trema nunca nos foi exigida.

Quem deve se beneficiar com esta tão inconseqüente medida? Creio que tão somente os alcagüetes, os delinqüentes e os sangüinários, justamente aqueles que não estão eqüidistantes, como nós, dos valores eqüiláteros da Sociedade.

Vocês já se argüiram sobre as conseqüências do fim do trema para os pingüins, os sagüis e os eqüestres? Estes perderão uma identidade conquistada desde a antigüidade.

E o que dizer do nosso herói Anhangüera, que vivia tranqüilo com o seu nome indígena? Com a liqüidação do trema, a pronúncia do seu nome não será mais exeqüível.
Os nossos papos de chopp nunca mais serão os mesmos, pois a tão freqüente lingüicinha acebolada vai desagüar num sangüíneo esquecimento.

O que vai acontecer com o grão de bico com gergelim, agora sem o liqüidificador para prepará-lo?
Ah, meu Deus! Tenha piedade de nós! Nunca mais poderemos escrever que "a última enxagüada é a que fica"!

Não sei se vou agüentar a perda da eloqüência, em termos de estilo literário, que o trema trazia à Última Flor do Lácio.
É preciso que averigüemos se haverá seqüelas futuras! E para onde vai a grandiloqüência dos lingüistas?
Haja ungüento para suportar tamanha dor!

O que podemos esperar em seqüência? Será que não se poderia esperar mais um qüinqüênio para que fossem melhor avaliados os líqüidos benefícios desta mudança?

Portanto, pela qüinqüagésima vez, a minha voz exangüe se une à dos bilíngües e trilíngües como eu, cuja consangüinidade lingüística e contigüidade sintática se revolta ante tamanha iniqüidade.

Pedir que nos apazigüemos, para mim é inexeqüível, pois falta-nos tranqüilidade diante de tamanha delinqüência gramatical.
Portanto é com dor no coração que lhe dou este meu adeus desmilingüido.

Adeus, meu trema querido! Mas pelo menos uma coisa me apazigüa, pois quando a saudade bater, sei que vou poder revê-lo quando estiver lendo alguma coisa em alemão.
Desconheço a autoria, mas a-d-o-r-e-i!

Despedida do TREMA - Colaboração Alexander Striemer


Como outros já fizeram, quero também me despedir do trema, cuja morte foi anunciada por decreto a partir de 1º de janeiro:

Não uma, mas cinqüenta e cinco vezes, quero me despedir desta acentuação antiqüíssima e usada com tanta freqüência. Fomos argüídos a respeito?
Claro que não! A ambigüidade que tínhamos para decidir se queríamos usar o trema ou não numa frase nos foi seqüestrada para sempre. Afinal, a ubiqüidade do trema nunca nos foi exigida.

Quem deve se beneficiar com esta tão inconseqüente medida? Creio que tão somente os alcagüetes, os delinqüentes e os sangüinários, justamente aqueles que não estão eqüidistantes, como nós, dos valores eqüiláteros da Sociedade.

Vocês já se argüiram sobre as conseqüências do fim do trema para os pingüins, os sagüis e os eqüestres? Estes perderão uma identidade conquistada desde a antigüidade.

E o que dizer do nosso herói Anhangüera, que vivia tranqüilo com o seu nome indígena? Com a liqüidação do trema, a pronúncia do seu nome não será mais exeqüível.
Os nossos papos de chopp nunca mais serão os mesmos, pois a tão freqüente lingüicinha acebolada vai desagüar num sangüíneo esquecimento.

O que vai acontecer com o grão de bico com gergelim, agora sem o liqüidificador para prepará-lo?
Ah, meu Deus! Tenha piedade de nós! Nunca mais poderemos escrever que "a última enxagüada é a que fica"!

Não sei se vou agüentar a perda da eloqüência, em termos de estilo literário, que o trema trazia à Última Flor do Lácio.
É preciso que averigüemos se haverá seqüelas futuras! E para onde vai a grandiloqüência dos lingüistas?
Haja ungüento para suportar tamanha dor!

O que podemos esperar em seqüência? Será que não se poderia esperar mais um qüinqüênio para que fossem melhor avaliados os líqüidos benefícios desta mudança?

Portanto, pela qüinqüagésima vez, a minha voz exangüe se une à dos bilíngües e trilíngües como eu, cuja consangüinidade lingüística e contigüidade sintática se revolta ante tamanha iniqüidade.

Pedir que nos apazigüemos, para mim é inexeqüível, pois falta-nos tranqüilidade diante de tamanha delinqüência gramatical.
Portanto é com dor no coração que lhe dou este meu adeus desmilingüido.

Adeus, meu trema querido! Mas pelo menos uma coisa me apazigüa, pois quando a saudade bater, sei que vou poder revê-lo quando estiver lendo alguma coisa em alemão.
Desconheço a autoria, mas a-d-o-r-e-i!